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Da sensação de peso nas pernas à úlcera, passando por derrames e varizes

Sofia Filipe

A úlcera da perna é a pior consequência da doença venosa. Antes de atingir esta fase, surge uma sensação de peso, cansaço e dor nos membros inferiores. Depois, é a vez das inestéticas varizes. Urge dar atenção às manifestações de uma doença que afecta mais de 50% das portuguesas e recorrer ao tratamento ainda numa fase precoce. Descubra aqui tudo o que escondem as pernas cansadas.

MAIS DE 50% DAS MULHERES SOFREM DE DOENÇA VENOSA

Complexos estéticos, tromboses venosas ou úlceras de perna são, apenas, três das consequências por se ignorar sintomas e umas veias em destaque nas pernas. Vulgarmente chamadas de varizes, em situações extremas, podem contribuir para a incapacidade de trabalhar e desenvolver tarefas domésticas.

As varizes são, no entanto, uma manifestação da doença venosa, uma patologia crónica, que consiste na perda da função das veias, isto é, a perda da capacidade de transportarem o sangue venoso, já usado, dos membros inferiores para o coração.

«Na década de 90 foi realizado um estudo sobre a prevalência da doença venosa, no qual se chegou à conclusão que cerca de um terço dos portugueses na idade adulta sofriam de doença venosa», avança o Dr. Serra Brandão, cirurgião vascular e director do IRV – Instituto de Recuperação Vascular.

«Segundo um inquérito feito a nível nacional pela Euroteste, em 2001, dois milhões de mulheres em idade adulta sofrem de doença venosa. Por outro lado, no estudo Detect do mesmo ano também se constatou que mais de metade não estavam a receber tratamento», acrescenta o cirurgião vascular.

E explica: «Apesar de terem os sintomas, não estavam a ser tratadas ou porque assumiam como facto consumado e nunca se queixaram ao médico, ou porque o próprio clínico não prestou a devida atenção.»

Apesar de existirem homens afectados pela doença venosa, eles são em menor número. Aliás, os dados já mencionados comprovam tal facto.

«As mulheres possuem mais factores de risco. Por exemplo, os homens não têm estrogénios e, por isso, não apresentam a sintomatologia específica da fase inicial da doença, em especial as dores», elucida Serra Brandão.



Peso, cansaço e dor nas pernas

Se é verdade que as mulheres são mais afectadas pela doença venosa, são os homens que, geralmente, aparecem com complicações mais graves como a úlcera da perna. Isto porque a ausência de dor não os mobiliza a procurarem o especialista. Assim, deixam que a doença progrida e consultam um profissional quando as varizes são já muito volumosas ou já têm úlcera.

São as mulheres, pois, que são «brindadas» com os primeiros sintomas da doença venosa: sensação de peso, cansaço e dor nos membros inferiores.

«A manifestação dos sintomas iniciais pode ser, apenas, um sinal de alarme para uma pessoa que mais tarde virá a ter doença venosa», comenta Serra Brandão, salientando que «esse sinal de alarme é tão ou mais forte quando existem factores hereditários ou uma profissão de risco».

Constitui motivo de preocupação quando a sintomatologia inicial, após algum tempo, ou logo no início, tem associado o edema (inchaço), causado pela acumulação de sangue nos membros inferiores que, por sua vez, origina a tumefacção do pé e do tornozelo.

De acordo com o estudo Detect, 85% das mulheres que têm doença venosa apresentam também edema que, habitualmente, se encontra reduzido ou ausente ao levantar. Note-se que estas mulheres referiram ter muitas limitações nas tarefas laborais e domésticas.

«Se associado à sensação de peso, cansaço e dor, aparecer o edema é porque a doença já está declarada. Nessa altura, o doente deverá recorrer imediatamente a um cirurgião vascular», alerta o responsável pelo IRV, continuando:
«Geralmente, na primeira fase da doença, o médico de família ajuda a aliviar a sintomatologia, através da administração de flebotropos, medicamentos que actuam no tónus venoso, na drenagem linfática, havendo alguns que também actuam na microcirculação e melhoram as condições da circulação dos membros inferiores. Se os sintomas persistirem, o indivíduo deverá ser imediatamente enviado para um especialista para a doença não progredir.»



E além do inchaço?

Por não serem sinais visíveis, as pessoas «deixam andar». Todavia, as consequências de se ignorar a sensação de peso, cansaço, dor e o inchaço podem ser muito desastrosas.

Numa fase posterior, surgem isolada ou concomitantemente telangiectasias. Mais conhecidos por «derrames», são pequenos capilares que aparecem na pele, geralmente na zona do tornozelo, perna ou coxa.

«Mais tarde, se o doente não se tratar, as telangiectasias começam a dilatar e o sangue fica estagnado. Surgem então cordões varicosos, chamados vulgarmente de varizes. Estas vão evoluindo desde um tamanho mais reduzido até àqueles grossos cordões que vêm desde a virilha até ao pé», indica Serra Brandão.

Se, mesmo assim, o doente continuar a não dar importância ao tratamento, o sangue estagnado na perna pode originar flebites, tromboses venosas profundas e impede a oxigenação dos tecidos, bem como a troca das substâncias que os alimentam. Desta forma, esses tecidos entram em sofrimento e, consequentemente, a pele começa a sofrer alterações – torna-se mais escura e fina.

Nada agradável é o que poderá daí advir. Conforme diz o mesmo cirurgião vascular, «neste estádio da doença, surge o eczema e, com este, uma forte comichão. Na fase seguinte, dá-se a abertura da úlcera de perna que, além do sofrimento e do tempo de cicatrização (entre seis meses a dois anos ou mais), provoca a incapacidade do doente».

É, pois, uma doença que quanto mais avançado for o estádio maior é a incapacidade a todos os níveis. Nos estádios mais evoluídos, o doente pode deixar de ter disposição para a convivência social e familiar, faltar ao emprego e reformar-se antecipadamente por invalidez.

Apesar de afectar indivíduos de todas as idades, obviamente, os grupos etários mais elevados, quando não tratados, têm a doença mais desenvolvida. Afinal, é uma patologia que vai se agravando com a idade, sendo que, normalmente, as pessoas mais novas apresentam estádios da doença em fases iniciais.



Tratamentos, cuidados e vigilância







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